Saúde pública

No centro expandido de São Paulo, filas de ginecologia revelam quem espera e quem desiste do SUS

Marina Alves · 12 de junho de 2026 · São Paulo · 9 min de leitura

Ilustração editorial sobre filas de atendimento ginecológico em São Paulo

Renata, 41 anos, moradora da Vila Prudente, pediu consulta ginecológica eletiva em outubro de 2025 por causa de sangramento irregular. Em maio de 2026, ainda aguardava retorno da unidade de referência. "Já pensei em desistir três vezes", conta, sentada no banco de concreto em frente à UBS onde fez a triagem. "Mas tenho medo de deixar passar."

A história de Renata não é exceção no centro expandido de São Paulo — região que concentra parte da demanda reprimida por especialidade no município. Entre janeiro e maio deste ano, o Ciclo Vivo acompanhou 34 mulheres que buscaram consulta eletiva em três unidades de referência da Secretaria Municipal de Saúde. O tempo médio de espera subiu de 94 para 118 dias no período, segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação e confirmados em entrevistas com gestores.

O mapa da fila

As três unidades — localizadas em regiões de alta densidade populacional na Zona Leste, no centro e na Zona Sul — atendem mulheres encaminhadas pela atenção primária com queixas que vão de alterações menstruais a suspeita de lesões no colo uterino. A triagem na UBS é rápida; o gargalo está na agenda do especialista.

Dra. Patrícia Moraes, ginecologista que atua em hospital universitário municipal, explica que a fila não é homogênea. "Mulheres com sinais de alarme — sangramento pós-menopausa, massa palpável, resultado alterado de citologia — entram em protocolo de prioridade. O problema é que muitas chegam com sintomas intermediários, classificados como eletivos, e ficam meses sem resposta."

Entre as entrevistadas, 12 relataram ter considerado procurar atendimento particular. Sete efetivamente pagaram consulta particular; quatro retornaram ao SUS depois de exames iniciais. O custo médio declarado foi de R$ 380 por consulta, sem incluir exames complementares.

Quem desiste e por quê

O abandono da fila raramente aparece como decisão consciente. É acumulado de obstáculos: falta de creche no horário da consulta, turno de trabalho inflexível, transporte longo até a unidade de referência, vergonha de repetir a queixa para um profissional diferente a cada tentativa frustrada.

Luciane, 29 anos, auxiliar de limpeza em Mooca, desistiu após quatro meses. "Ligavam para remarcar, eu não podia faltar. Aí saí da fila sem avisar." Ela voltou à UBS apenas quando a dor pélvica intensificou. Desta vez, foi classificada como urgência e consultou em dez dias.

Para Carla Nascimento, assistente social que coordena grupo de mulheres na região do Belenzinho, o padrão é claro: "Quem tem rede de apoio espera. Quem cuida sozinha de filhos e idosos troca saúde por sobrevivência imediata."

O que a gestão responde

A Secretaria Municipal de Saúde informou, em nota, que ampliou em 18% as vagas de ginecologia eletiva no primeiro semestre de 2026, com contratação de profissionais por hora extra e remanejamento de agendas. Reconheceu, porém, que a demanda cresceu mais rápido que a oferta — especialmente após campanhas de prevenção que aumentaram encaminhamentos para colposcopia.

Um programa piloto de teleconsulta para retorno de exames de rotina está em teste em duas unidades. A avaliação preliminar indica redução de 22% nas faltas, mas médicas ouvidas pela reportagem alertam: "Telemedicina ajuda no acompanhamento, não substitui exame físico quando há queixa nova", diz Dra. Moraes.

Pequenas vitórias, grandes lacunas

Nem toda a experiência é de espera infinita. Denise, 52 anos, conseguiu consulta em sete semanas após a técnica de enfermagem da UBS anexar ao processo resultado de ultrassom feito na unidade. "Ela disse que com documento completo a classificação muda. Funcionou."

Histórias como a de Denise mostram que pequenos ajustes no encaminhamento podem destravar a fila. Mas dependem de profissionais com tempo — outro recurso escasso. Em uma das unidades visitadas, a equipe de enfermagem atende em média 47 pessoas por dia na janela da manhã.

Renata, que abre esta reportagem, recebeu ligação para consulta em 11 de junho de 2026 — oito meses após o pedido inicial. Vai levar o caderno onde anotou cada sintoma, cada ligação, cada protocolo. "Não é vitória. É alívio com ressalva", resume.

O Ciclo Vivo continuará acompanhando o piloto de teleconsulta e publicará atualização em agosto. Para relatos de outras regiões de São Paulo, escreva para [email protected].

Revisão técnica: Dra. Patrícia Moraes, ginecologista (CRM-SP). Este texto é jornalístico e não substitui consulta médica.