A van branca estacionada na praça do bairro Santa Mônica, na região Noroeste de Belo Horizonte, não chama atenção à primeira vista. Mas a fila de mulheres com caderneta na mão revela sua função: unidade móvel de coleta de citologia oncótica, parte do programa municipal "Caminho do Cuidado" lançado em setembro de 2025.
Em oito meses de operação, o programa percorreu 47 bairros e realizou 14.200 coletas de Papanicolau — número que a Secretaria Municipal de Saúde comemora como avanço na cobertura de rastreio. Ainda assim, uma pesquisa de saída conduzida com 600 participantes, compartilhada com o Ciclo Vivo, mostra lacuna preocupante: 22% nunca tinham feito o exame antes; entre mulheres acima de 45 anos, a proporção sobe para 31%.
Levar o exame até a praça
A lógica do programa é reduzir barreiras geográficas e burocráticas. A unidade móvel funciona três dias por semana, com agenda divulgada em redes comunitárias e CRAS. Não exige agendamento prévio para coleta; exige, para resultado, vínculo com UBS do território.
Enfermeira responsável pela equipe, Carla Mendes explica o fluxo: "Coletamos, enviamos ao laboratório municipal, e o resultado vai para a UBS da paciente. Se alterado, a unidade aciona para colposcopia." O prazo médio de liberação caiu de 45 para 28 dias após contratação de leitura noturna no laboratório.
Quem aparece — e quem ainda não
Entre as entrevistadas na pesquisa de saída, as motivações mais citadas para nunca ter feito o exame foram: medo da dor (38%), vergonha (27%), falta de tempo por cuidar de dependentes (19%) e desconhecimento de que o exame é gratuito no SUS (11%).
Teresa, 48 anos, doméstica no bairro Barreiro, fez a primeira citologia da vida na van. "Meu marido dizia que mulher casada não precisa. Ouvi a vizinha falar na praça e vim." O exame detectou lesão de baixo grau; ela está em acompanhamento na UBS com colposcopia agendada.
Jovens entre 25 e 34 anos representaram 41% das coletas — faixa etária que programas anteriores alcançavam com dificuldade. Entre adolescentes elegíveis (a partir de 25 anos, conforme diretriz do Ministério da Saúde para início do rastreio citológico em mulheres sexualmente ativas), a adesão permanece baixa: menos de 8% do total.
Números e contexto
O câncer de colo uterino é a quarta neoplasia mais incidente entre mulheres no Brasil, com estimativa de 17 mil novos casos em 2026 segundo dados do Instituto Nacional de Câncer. A detecção precoce por citologia reduz mortalidade, mas o país mantém cobertura de rastreio abaixo da meta de 40% da população-alvo em vários municípios.
Belo Horizonte chegou a 36% de cobertura estimada no primeiro trimestre de 2026, ante 29% no mesmo período de 2025 — ganho atribuído em parte ao programa móvel. A meta municipal para o fim do ano é 42%.
Gargalos depois da coleta
O avanço na coleta não elimina gargalos no seguimento. Pacientes com resultado alterado enfrentam fila para colposcopia que, em três unidades de referência ouvidas, varia de 30 a 90 dias. A secretaria informou contratação de horas extras para ginecologistas em duas unidades a partir de julho.
Dra. Ana Paula Rocha, do Hospital das Clínicas da UFMG, comenta: "Rastreio sem garantia de diagnóstico e tratamento oportuno gera ansiedade e desconfiança. A mulher faz o exame, recebe alteração, e espera. Se esperar demais, não volta na próxima campanha."
Próximos passos
O programa prevê integração com teste de HPV em amostra de unidades a partir de agosto — método recomendado pelo Ministério da Saúde como alternativa ao Papanicolau em alguns contextos. A transição exige capacitação e novo fluxo laboratorial.
Para Fernanda Costa, correspondente do Ciclo Vivo em Minas, o "Caminho do Cuidado" mostra que inovação em prevenção pode ser simples: "Levar a van até a praça onde a mulher já está — com filhos, com vizinhas — quebra isolamento. Mas só funciona se o resultado tiver resposta rápida do outro lado."
A van estará no Aglomerado da Serra em 15 de junho. A agenda completa está disponível nas UBS da região. Relatos de outras cidades mineiras: [email protected].
Revisão técnica: Dra. Ana Paula Rocha, ginecologista (CRM-MG). Informação de caráter jornalístico.