Na quadra coberta da comunidade São José, em Irajá, cerca de quarenta mulheres formam um círculo de cadeiras plásticas num sábado de manhã. No centro, um pôster rabiscado à mão lista temas do mês: corrimento, métodos contraceptivos, violência obstétrica. Não há microfone, não há palco — só conversa.
O encontro é organizado pelo coletivo Vizinhança que Cuida, rede informal de voluntárias que desde 2024 percorre bairros da Zona Norte carioca levando informação sobre saúde íntima onde, segundo as participantes, o posto de saúde não alcança com a mesma proximidade.
Origem no corredor
A fundadora, Márcia Oliveira, 38 anos, técnica de enfermagem aposentada da atenção básica, conta que a ideia surgiu depois de ouvir a mesma pergunta dezenas de vezes na UBS: "Doutora, isso é normal?" — sobre odor, sobre sangramento, sobre dor na relação. "As mulheres tinham vergonha de perguntar com outras pessoas na sala. Aqui, no bairro, a vergonha baixa."
Os encontros acontecem uma vez por mês em Madureira, Irajá e, desde março de 2026, em Cordovil. A média de participantes por roda é de 35, mas já houve edição com mais de 80 mulheres em dia de campanha conjunta com farmácia popular do bairro.
O que se conversa — e o que se evita
Cada roda segue roteiro flexível. Há 20 minutos de apresentação por uma convidada — ginecologista voluntária, enfermeira, assistente social ou advogada dos direitos reprodutivos — e o restante é perguntas abertas. Os temas mais recorrentes, segundo levantamento informal do coletivo, são: corrimento e candidíase, anticoncepcionais com efeitos colaterais, dúvidas sobre DIU, e relatos de desrespeito durante o parto.
O coletivo não prescreve tratamento. Distribui cartazes com sinais de alerta e encaminha para UBS quando identifica caso que exige avaliação clínica. Em 2025, registraram 127 encaminhamentos documentados; 89 retornaram com feedback de que consultaram.
Dra. Fernanda Lins, ginecologista que participou de três rodas como voluntária, avalia: "É educação em saúde de verdade. As perguntas são concretas: posso tomar pílula fumando? O DIU dói em quem nunca teve filho? A linguagem precisa ser a da rua, sem julgamento."
Reconhecimento — e limites
Em abril de 2026, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio reconheceu formalmente dois encontros do Vizinhança que Cuida como extensão de educação em saúde, permitindo uso de material institucional e registro de participantes para indicadores de promoção. O coletivo celebrou, mas mantém independência editorial: "Não vamos virar palestra de governo", diz Márcia.
A parceria não inclui repasse financeiro. As voluntárias arcam com transporte e, às vezes, com lanche compartilhado. Uma rede de pequenos comércios locais doa água e cadeiras extras.
Histórias que saem do silêncio
Paula, 26 anos, participou pela primeira vez em fevereiro após uma amiga insistir. Relatou à reportagem que levou à UBS queixa de corrimento persistente que adiava há um ano por constrangimento. Diagnosticada com infecção tratável, recebeu medicação na farmácia municipal. "Se não fosse a roda, eu continuaria pesquisando no Google e ficando com medo", afirma.
Outro caso, tratado com cuidado pelo coletivo por envolver violência doméstica, foi encaminhado à delegacia especializada e ao CRAS do bairro com acompanhamento de assistente social presente no encontro. O coletivo mantém parceria com grupo de advocacia feminina para esses casos.
Desafios pela frente
A expansão para Cordovil trouxe desafio logístico: maior distância para profissionais voluntárias e percepção de insegurança em horários noturnos. Por isso, os encontros são exclusivamente matutinos, aos sábados, com presença de líderes comunitárias conhecidas no território.
Pesquisadoras da UERJ acompanham o modelo para estudo sobre educação em saúde em periferias urbanas. Os resultados preliminares apontam aumento de procura por citologia entre participantes recorrentes — dado que o coletivo considera indicativo de impacto, embora não comprove causalidade.
Para Juliana Rocha, correspondente do Ciclo Vivo no Rio, o Vizinhança que Cuida ilustra o que a cobertura de saúde da mulher frequentemente ignora: "A informação também precisa de lugar, de horário, de confiança. O SUS é essencial, mas a comunidade preenche o que a porta do posto, sozinha, não resolve."
O coletivo aceita novas voluntárias com formação em saúde ou direitos humanos. Contato via redação: [email protected].
Revisão técnica: Dra. Fernanda Lins, ginecologista (CRM-RJ). Conteúdo informativo; não substitui atendimento clínico.