Comunidade

Na Zona Norte do Rio, grupos de vizinhança levam informação sobre saúde íntima onde o posto não alcança

Juliana Rocha · 10 de junho de 2026 · Rio de Janeiro · 8 min de leitura

Ilustração editorial sobre rede de apoio à saúde feminina no Rio de Janeiro

Na quadra coberta da comunidade São José, em Irajá, cerca de quarenta mulheres formam um círculo de cadeiras plásticas num sábado de manhã. No centro, um pôster rabiscado à mão lista temas do mês: corrimento, métodos contraceptivos, violência obstétrica. Não há microfone, não há palco — só conversa.

O encontro é organizado pelo coletivo Vizinhança que Cuida, rede informal de voluntárias que desde 2024 percorre bairros da Zona Norte carioca levando informação sobre saúde íntima onde, segundo as participantes, o posto de saúde não alcança com a mesma proximidade.

Origem no corredor

A fundadora, Márcia Oliveira, 38 anos, técnica de enfermagem aposentada da atenção básica, conta que a ideia surgiu depois de ouvir a mesma pergunta dezenas de vezes na UBS: "Doutora, isso é normal?" — sobre odor, sobre sangramento, sobre dor na relação. "As mulheres tinham vergonha de perguntar com outras pessoas na sala. Aqui, no bairro, a vergonha baixa."

Os encontros acontecem uma vez por mês em Madureira, Irajá e, desde março de 2026, em Cordovil. A média de participantes por roda é de 35, mas já houve edição com mais de 80 mulheres em dia de campanha conjunta com farmácia popular do bairro.

O que se conversa — e o que se evita

Cada roda segue roteiro flexível. Há 20 minutos de apresentação por uma convidada — ginecologista voluntária, enfermeira, assistente social ou advogada dos direitos reprodutivos — e o restante é perguntas abertas. Os temas mais recorrentes, segundo levantamento informal do coletivo, são: corrimento e candidíase, anticoncepcionais com efeitos colaterais, dúvidas sobre DIU, e relatos de desrespeito durante o parto.

O coletivo não prescreve tratamento. Distribui cartazes com sinais de alerta e encaminha para UBS quando identifica caso que exige avaliação clínica. Em 2025, registraram 127 encaminhamentos documentados; 89 retornaram com feedback de que consultaram.

Dra. Fernanda Lins, ginecologista que participou de três rodas como voluntária, avalia: "É educação em saúde de verdade. As perguntas são concretas: posso tomar pílula fumando? O DIU dói em quem nunca teve filho? A linguagem precisa ser a da rua, sem julgamento."

Reconhecimento — e limites

Em abril de 2026, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio reconheceu formalmente dois encontros do Vizinhança que Cuida como extensão de educação em saúde, permitindo uso de material institucional e registro de participantes para indicadores de promoção. O coletivo celebrou, mas mantém independência editorial: "Não vamos virar palestra de governo", diz Márcia.

A parceria não inclui repasse financeiro. As voluntárias arcam com transporte e, às vezes, com lanche compartilhado. Uma rede de pequenos comércios locais doa água e cadeiras extras.

Histórias que saem do silêncio

Paula, 26 anos, participou pela primeira vez em fevereiro após uma amiga insistir. Relatou à reportagem que levou à UBS queixa de corrimento persistente que adiava há um ano por constrangimento. Diagnosticada com infecção tratável, recebeu medicação na farmácia municipal. "Se não fosse a roda, eu continuaria pesquisando no Google e ficando com medo", afirma.

Outro caso, tratado com cuidado pelo coletivo por envolver violência doméstica, foi encaminhado à delegacia especializada e ao CRAS do bairro com acompanhamento de assistente social presente no encontro. O coletivo mantém parceria com grupo de advocacia feminina para esses casos.

Desafios pela frente

A expansão para Cordovil trouxe desafio logístico: maior distância para profissionais voluntárias e percepção de insegurança em horários noturnos. Por isso, os encontros são exclusivamente matutinos, aos sábados, com presença de líderes comunitárias conhecidas no território.

Pesquisadoras da UERJ acompanham o modelo para estudo sobre educação em saúde em periferias urbanas. Os resultados preliminares apontam aumento de procura por citologia entre participantes recorrentes — dado que o coletivo considera indicativo de impacto, embora não comprove causalidade.

Para Juliana Rocha, correspondente do Ciclo Vivo no Rio, o Vizinhança que Cuida ilustra o que a cobertura de saúde da mulher frequentemente ignora: "A informação também precisa de lugar, de horário, de confiança. O SUS é essencial, mas a comunidade preenche o que a porta do posto, sozinha, não resolve."

O coletivo aceita novas voluntárias com formação em saúde ou direitos humanos. Contato via redação: [email protected].

Revisão técnica: Dra. Fernanda Lins, ginecologista (CRM-RJ). Conteúdo informativo; não substitui atendimento clínico.